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Pinhão manso será avaliado Imprimir E-mail
- Fonte: Jornal de Brasília - DF   
sexta, 22 fevereiro 2008

Desde que o programa do biodiesel foi criado, as plantas oleaginosas entraram na mira dos produtores rurais e dos pesquisadores, em busca das mais produtivas e viáveis economicamente. Uma das que tem chamado a atenção é o pinhão manso (Jatropha curcas L). Agora, o potencial da planta para produção de biodiesel começa a ser estudado em dois experimentos montados na área de campo da Embrapa Cerrados (Planaltina – DF).

O agrônomo Adeliano Cargnin, pesquisador em genética e melhoramento é o responsável pela montagem dos experimentos. Ele explica que foram plantadas 1.600 mudas, divididas em duas áreas em condições distintas de fertilidade do solo.

"Iremos estudar a variabilidade genética, avaliar a resposta a diferentes níveis de fertilidade do solo e selecionar as plantas mais produtivas para produção de biodiesel", destaca Cargnin. A área experimental possui 20 acessos (materiais) de pinhão manso para avaliação.

As sementes foram fornecidas pela Embrapa Algodão (Campina Grande – PB), Embrapa Meio Norte (Teresina – PI), Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados – MS), Embrapa Semi-Árido (Petrolina – PE) e Universidade de Lavras. Em algumas dessas instituições de pesquisa também estão sendo conduzidos experimentos semelhantes aos que começam a ser feitos na Embrapa Cerrados.

Para garantir acessos de diferentes regiões, também foi feita coleta de sementes em propriedades de Porangatu (GO), Arinos e Paracatu (MG).

Segundo Adeliano Cargnin, a maioria das coletas de sementes foram feitas em locais onde a planta ocorre naturalmente, em quintais e pequenos plantios. Apenas duas foram de plantios comerciais, mesmo assim, em pequenas áreas.

Fertilidade
A primeira área plantada na Embrapa Cerrados recebeu as doses recomendadas de nutrientes e o segundo experimento foi implantado em solo de baixa fertilidade. "A adubação é com base na saturação de bases, sendo a alta fertilidade 60% e a baixa fertilidade 30%. Isso foi feito visando criar duas condições contrastantes de fertilidade do solo", explica Cargnin.

A pesquisa pretende avaliar condições de solo, clima e exigências nutricionais da espécie para que o cultivo do pinhão manso possa dar o retorno esperado na produção de biodiesel. Cargnin estima que, entre três e quatro anos, deve ter respostas, validadas pela pesquisa, sobre a viabilidade de produção nas condições do Cerrado.

A equipe envolvida na pesquisa, que faz parte do projeto Fontes Alternativas Potenciais de Matérias-primas para Produção de Agroenergia, em andamento no Macroprograma 1 da Embrapa, conta com patrocínio de R$ 250 mil da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Ela fará, também, estudos sobre balanço energético, seqüestro de carbono e aproveitamento do subproduto do pinhão manso para alimentação animal.

Para calcular o balanço energético, será avaliada a quantidade de energia incluída (insumos, diesel, agrotóxicos, pessoal) na produção do pinhão manso e quanto de energia a cultura produz na unidade de tempo e espaço (óleo por ha ao ano).

Arrisque em pequenas áreas
Atualmente, é comum encontrar sites na internet e até mesmo anúncios, oferecendo sementes e mudas de pinhão manso. Alguns produtores têm comprado e se aventurado no cultivo dessa oleaginosa.

A recomendação de quem tem conhecimentos sobre a planta é que o produtor que se decidiu por plantar pinhão manso, que o faça em pequenas áreas. Isso porque trata-se de uma cultura perene que somente agora começa a ser estudada.

Portanto, é melhor se arriscar moderadamente, sob risco de se arrepender depois. Ademais não há muito porque se antecipar nesse cultivo, uma vez que em um ano a planta já começa a se reproduzir. Adeliano Cargnin explica que somente a partir do segundo ou terceiro ano a planta vai produzir uma carga maior, mesmo assim, não chega a demorar tanto como algumas plantas de Cerrado que levam de cinco a dez anos para começar a frutificar.

"Hoje, quem compra sementes ou mudas dessas pessoas está levando um produto sem nenhuma certificação nem garantia", alerta o pesquisador.

Mesmo não havendo ainda garantias nem recomendações técnicas de produção Adeliano Cargnin explica que não estão desestimulando quem deseja plantar pinhão manso. "Não somos contrários ao plantio do pinhão manso agora, só que não temos como recomendar, uma vez que não temos base para isso, não sabemos quais os níveis de adubação, como fazer o controle sanitário e nem mesmo o espaçamento e a densidade de plantas por área", justifica o pesquisador da Embrapa.

Ele avalia que que quem está plantando agora está se arriscando e, por isso mesmo, recomenda que é melhor ter cautela e evitar o plantio de áreas muito extensas.

Maiores informações: Adeliano Cargnin, pesquisador da Embrapa Cerrados – 3388 9844 e 3388-9829 e pelo e-mail

Outras oleaginosas serão testadas
Esta semana, uma nova área foi plantada com pinhão manso, na Embrapa Cerrados. Segundo Adeliano Cargnin, ela se destina à avaliação do espaçamento por densidade de plantas, para avaliar a melhor população de plantas por hectare.

Nos experimentos por ele conduzidos, será testado, também, o uso de irrigação no pinhão manso. Uma das áreas será mantida como plantio de sequeiro, a outra, será irrigada por microaspersão. "Uma das plantas receberá zero de microaspersor, outra receberá um, até uma que receberá quatro dels", explica o pesquisador.

Segundo ele, isso será feito para saber o comportamento do cultivo irrigado, se é mais vantajoso que o de sequeiro, e também, para determinar a lâmina d'água necessária (a dose certa de água fornecida à planta). Por isso, vão usar várias dosagens para verificar qual a mais eficiente.

Outras plantas
Além do pinhão manso, estão sendo testados, também, na Embrapa Cerrados, a macaúba, o pequi e o dendê (também conhecido como palma). Segundo o pesquisador, são plantas cujo teor de óleo é interessante. O dendê já foi plantado e está sendo conduzido em irrigação, porque é mais exigente em água.

A macaúba está em fase de coleta de sementes. As mudas serão formadas e o plantio será feito no final do ano. Adeliano lembra que esta é uma planta de difícil propagação, mas a pesquisa vai contar com a colaboração de uma pesquisadora-bolsista do CNPq, que vai fazer o resgate de embriões.

Esse procedimento é feito quebrando-se o coco e pegando, dentro da amêndoa, o pequeno embrião da semente. Ele é colocado em um tudo de ensaio, em meios de cultivo, para que germine. Quando estiver com 10 a 20 cm, é transplantado.

Além dessa tecnologia, conseguindo a reprodução por meio do embrião, pode-se fazer, também, cultura de tecidos para reprodução da macaúba.

Grão pode ter 38% de óleo

Não se sabe ao certo qual é a origem do pinhão manso, mas segundo Adeliano Cargnin, há ocorrências dele em regiões da América Central, assim como na Índia, China, México e Cabo Verde. É uma planta com elevado potencial comercial para produção de biodiesel, pois o fruto inteiro chega a ter 28% de óleo e o grão, 38%, o que é considerado um excelente percentual, já que o grão da soja possui, em média, 18% de óleo.

Dessa forma, se as pesquisas conseguirem selecionar as cultivares mais produtivas, chegarem a recomendações técnicas plantio, condução e manejo para áreas comerciais e as plantas forem produtivas, o cultivo de pinhão manso para produção de biodiesel pode ser realmente vantajoso. Entretanto, até o momento há apenas observações empíricas sobre o cultivo dessa planta que tanto tem chamado a tenção dos produtores.

A propagação do pinhão manso é feito por meio de mudas formadas a partir das sementes ou de estacas. Quando as mudas estiverem com 50 cm a 60 cm, o que ocorre em cerca de 20 a 25 dias, elas podem ser transplantadas para o campo.

Em um ano, a planta já dá sua primeira florada e produz os primeiros frutos. Adeliano diz que a primeira carga é pequena, mas a partir da segunda e da terceira, a quantidade de frutos aumenta bastante. A planta produz durante boa parte do ano. Depois, perde as folhas e fica um tempo como que hibernando.

Uniformização
Um dos objetos de estudo da pesquisa conduzida na Embrapa Cerrados é a uniformização da frutificação do pinhão manso. Adeliano explica que a planta emite flores e frutos por um longo período do ano e de forma desuniforme. "Quase sempre tem flores, frutos pequenos, maiores e já maduros", explica o pesquisador. Por isso, uma das metas é obter tecnologias de uniformização da produção.

Outra preocupação é quanto à colheita. Se for comprovado que a terá boa produção por área e forem plantadas grandes lavouras, terá de ser desenvolvidas tecnologias para facilitar a colheita.


Outra vantagem do pinhão manso é que ele pode ser reproduzido, também, por meio de propagação vegetativa (estaquia). Pega-se um galho e enterra em um substrato preparado, formando um clone da planta-mãe. Isso, segundo Adeliano, facilita a reprodução.

"Um dos gargalos da pesquisa é a reprodução da planta. Se a reprodução for fácil, se encontrarmos uma planta superior, podemos reproduzi-la facilmente e de forma mais rápida", observa o pesquisador da Embrapa Cerrados.